De costas...

Resolvi voltar as costas ao mundo, fartei-me da sua sujidade, da sua pouca dignidade, da sua inverdade...
Estou farta de ser correcta numa sociedade incorrecta, desprovida de valores e sentimentos...
Olho para estes tristes seres e apenas lamento o ingrato e amargo vazio que lhes corre nas veias e a maldade que lhes impulsiona os dias.
Na sua completa insignificância já não me atingem, sobrando espaço apenas para me proteger dos seus malefícios e me manter fiel a mim mesma.
Apenas quero que me deixem na minha Paz. Os que me tentarem atingir provarão o sabor do seu própio veneno, como uma cascável que morde a sua cauda e morre, inevitavelmente, na sua própria boca.
Construí o meu próprio mundo, àparte desta loucura global onde Homens mais não são que bichos raivosos, desrespeitando até a severa lei da sobrevivência.
Aqui SOU, sem medos e sem mentira, despida de tudo, vestida apenas de MIM. Aqui DOU, incondicionalmente, tudo o que SOU...a quem nele comigo Convive e mantem acesa a verdade de Sentir e Ser quem é!
De costas...não permitirei que me apunhalem mais!
E, neste belo mundo sem mundo, a porta só abre com as leves e mágicas batidas dos sentimentos...

Pinceladas de Vida


Duas telas, já marcadas por traços antigos e amarelecidas pelo tempo, andavam à deriva nos ventos que sopravam, quando uma hábil pintora as descobriu e as reciclou.
Manchas escuras e vincos profundos deixavam perceber que tinham sido maltratadas; os cantos amarrotados mostravam falta de carinho e cuidados no seu manusear.
A pintora abriu-as cuidadosamente, colmatou-lhes as rugas, alisou-as e compôs-lhes as margens esfarrapadas.
Meticulosamente, resolvendo uni-las, ajustou-as uma à outra e, numa só tela gigante, decidiu pintar uma paisagem diferente, um retrato único que ficasse na história do coração da humanidade.
Começou por esboçar um fundo harmonioso para que a junção das duas telas passasse despercebida.
Depois, criando novas cores, deixou voar a sua imaginação e pinceladas fortes e vivas foram aparecendo, dando vida ao que parecia já ter conhecido um estado de quase morte.
Pouco a pouco, novos matizes delinearam formas, umas esbatidas, outras bem demarcadas… e aquela tela original foi renascendo, encheu-se de odores a Primavera, bater de asas ligeiros e subtis, sabores a maresia.
Não podendo ignorar os tons mais escuros, com eles pintou a noite, mas salpicou-a de estrelas e nela rasgou raios de luar prateados.
Pincelou tempestades, mas por entre as nuvens havia sempre alguns raios de sol, que tornavam mais suaves aquelas tonalidades sombrias.
Mas esta artista preferia as cores claras e alegres, plenas de vida e essas predominavam no conjunto, imprimindo-lhe um brilho radioso que encantava o olhar.
Cada movimento do pincel moldava novos detalhes e, imparável na sua criatividade, inventou nuances únicas na sua luminosidade.
Ainda não satisfeita consigo mesma, imprimiu ao seu trabalho uma vontade imperiosa de perfeição e continuou a sua obra, incansável, todos os dias.
E aquelas duas telas já gastas, agora transformadas, são o suporte de uma obra-prima da Vida, que decidiu uni-las com uma força sem igual, tornando-as unas e indissociáveis.
Neste trabalho ainda não terminado, já se percebe a coragem e a honestidade. De cada canteiro florido ressalta a luz inconfundível do amor e da união, da partilha profunda dos recantos da alma. As borboletas transportam nas asas a força, o querer e a vontade.
Em cada pormenor desta aguarela descobrimos sonhos escondidos que agora se mostram e ganham um sentido real.
E a cada novo dia mais um retoque é acrescentado nestas duas telas feita uma, nestas duas existências inapartáveis, que a cada pingo de tinta mais se misturam, transformando-se, passo a passo, nesta obra de arte que a Vida, artista suprema, resolveu desenhar em nós.