03 fevereiro 2011

Telepatia




Telepatia, propriedade dos amantes que, mesmo ao longe, sentem no mais íntimo de si todas as dores... os sorrisos, os pensamentos, os toques ao de leve na alma numa carícia profunda...
Todo o universo de sentir, as dúvidas, os lamentos, o silêncio, o riso e o choro... as vontades adiadas, os quereres que se sustêm...
Telepatia
quando profundamente os dois se vivem indissoluvelmente ligados e a vida apenas é Vida num constante Sentirem-se.

10 janeiro 2011

Eu Sei, Mas Não Devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

( Marina Colasanti)

22 novembro 2010

Meio Século


Meio século de vida, de passos dados em caminhos nem sempre risonhos.
Muitas pedras se tiveram de contornar, muitos precipícios se abriram à frente, muitas encostas íngremes tiveram de ser conquistadas, a pulso, com garra.
No fundo do coração sempre habitou um Crer, um infinito Crer que um dia...iria acontecer! Um dia chegaria o que só uma vez na vida acontece verdadeiramente.
Durante muito tempo esse crer foi abafado, adormecido, substituído até por muitos outros quereres superficiais e passageiros.
Nasceram e morreram supostos amores, foi escalada a montanha da traição, da indiferença, do vazio, da repulsa... esse Crer quase foi assassinado por um mundo que não sabe sentir e uma íntima solidão me acompanhava, estivesse onde e com quem estivesse.

Um dia uma curta mensagem convidou-me a viver de novo.
Li-a, tímida, desconfiada, temendo a dor, mas alguma coisa me impeliu a responder... Afinal esse Crer ainda estava vivo! Quem sabe...pensei.
Desde então a vida foi ganhando um significado novo e diferente, tão cheio de tudo que algumas vezes cheguei a duvidar.
Sofri e muitas vezes chorei em silêncio, a coberto destas paredes que me resguardaram do mundo e serviram de ombro para as minhas dores.
Hoje, com meio século já vivido, o Crer que sempre esteve comigo, cresceu. É adulto, consciente, leal, fiel.
Hoje também já chorei aqui, entre as mesmas paredes...mas estas lágrimas foram de comoção e de uma intensa felcidade.
Hoje grito todas as certezas porque as conheço, porque as vivo todos os dias.
Hoje já foi banida a solidão e ao meu lado caminha, numa íntima e completa união este...SINTO-TE, Profundamente!